Radiofrequência para dor: como funciona e quando é indicada
Quando uma dor persiste apesar de medicamentos, fisioterapia e outras medidas conservadoras, existem situações em que procedimentos intervencionistas podem fazer parte do tratamento.
A radiofrequência é uma dessas possibilidades.
Apesar do nome sugerir algo relacionado à radioterapia ou radiação, o princípio é diferente. O procedimento utiliza energia de radiofrequência aplicada de maneira controlada por meio de uma agulha posicionada próxima a um alvo nervoso específico.
Dependendo da técnica utilizada, essa energia pode produzir uma lesão térmica controlada ou modular a atividade do nervo, reduzindo sua participação na transmissão dos sinais dolorosos.
Mas existe um ponto fundamental: radiofrequência não é um tratamento para qualquer tipo de dor.
O resultado depende principalmente de identificar corretamente qual estrutura está envolvida e quais nervos participam daquele quadro.

O que é radiofrequência?
Na radiofrequência convencional, uma cânula especial é posicionada próxima ao nervo que se deseja abordar.
Um eletrodo introduzido por essa cânula gera uma corrente elétrica de alta frequência, produzindo aumento controlado da temperatura ao redor da ponta. O objetivo é alterar temporariamente a capacidade daquele nervo de transmitir sinais de dor.
É por isso que também encontramos termos como ablação por radiofrequência ou neurotomia por radiofrequência.
Isso não significa, porém, que o procedimento simplesmente “destrua o nervo” de maneira definitiva.
O alvo costuma ser um ramo sensitivo específico relacionado à transmissão da dor, e esses nervos podem recuperar sua função com o passar do tempo.
Por isso, quando o procedimento funciona, o efeito não precisa ser permanente.
Radiofrequência convencional, resfriada e pulsada são a mesma coisa?
Existem diferentes modalidades de radiofrequência, com características próprias.
A radiofrequência térmica convencional produz uma área de lesão controlada ao redor do eletrodo utilizando calor.
Na chamada radiofrequência resfriada, o eletrodo possui um sistema de resfriamento que permite produzir uma área de tratamento diferente e geralmente maior ao redor do alvo.
Já a radiofrequência pulsada utiliza pulsos de energia e temperaturas mais baixas, buscando principalmente uma ação de neuromodulação, sem produzir a mesma lesão térmica característica da radiofrequência convencional. A literatura sobre radiofrequência pulsada vem crescendo, mas seu nível de evidência varia bastante conforme a condição tratada.
A técnica precisa ser escolhida de acordo com o alvo, o mecanismo da dor e as evidências disponíveis para aquela situação.
Em quais tipos de dor a radiofrequência pode ser utilizada?
Uma das aplicações mais estabelecidas ocorre em determinados quadros de dor facetária da coluna.
As articulações facetárias ficam na região posterior das vértebras e podem participar de alguns casos de dor cervical ou lombar.
Quando existe suspeita de que essas articulações sejam uma fonte relevante da dor, podem ser realizados bloqueios diagnósticos dos pequenos nervos que as inervam, chamados ramos mediais.
Se a resposta ao bloqueio for compatível com a hipótese clínica, a radiofrequência desses nervos pode ser considerada.
Esse processo de seleção é tão importante que recomendações do NICE orientam realizar radiofrequência para determinados casos de dor lombar apenas após resposta positiva a um bloqueio diagnóstico do ramo medial.
As recomendações internacionais mais recentes continuam destacando que a resposta ao bloqueio dos ramos mediais ajuda a selecionar pacientes com maior probabilidade de benefício da radiofrequência.
A radiofrequência também pode ser utilizada no joelho?
Em casos selecionados, sim. Na artrose do joelho, por exemplo, é possível abordar os chamados nervos geniculares, pequenos ramos nervosos que participam da transmissão da dor proveniente da articulação.
É importante entender o objetivo desse procedimento.
A radiofrequência dos nervos geniculares não reconstrói a cartilagem e não elimina a artrose. O objetivo é reduzir a transmissão dos sinais dolorosos associados à articulação.
Um ensaio clínico randomizado e duplo-cego publicado em 2024 comparou radiofrequência resfriada dos nervos geniculares com um procedimento simulado em pacientes com artrose dolorosa do joelho. Aos três meses, 76,5% dos pacientes tratados foram classificados como respondedores, contra 33,3% no grupo placebo, e a redução da dor foi mantida ao longo dos seis meses avaliados. O estudo não encontrou, entretanto, diferença significativa entre os grupos em todas as medidas funcionais analisadas.
Isso exemplifica bem por que devemos separar redução da dor de correção da doença de base.
A radiofrequência funciona para todo mundo?
Não. E talvez esse seja o ponto mais importante para quem está considerando o procedimento.
Os resultados variam entre pacientes e entre diferentes indicações.
Um estudo multicêntrico publicado em 2025 acompanhou pacientes submetidos à radiofrequência convencional ou resfriada dos nervos geniculares durante 12 meses. Aproximadamente 22% dos participantes avaliados apresentaram redução de pelo menos 50% da dor aos 12 meses, mostrando que o benefício pode persistir em uma parcela dos pacientes, mas não ocorre da mesma forma para todos.
Na coluna, também existe heterogeneidade nos estudos. Consensos clínicos consideram que a radiofrequência dos ramos mediais pode beneficiar pacientes criteriosamente selecionados, mas trabalhos recentes continuam discutindo a magnitude do benefício e quais critérios de seleção produzem melhores resultados.
Por isso, a indicação não deve começar pela pergunta: “Radiofrequência funciona?”
A pergunta mais adequada é: “Existe um alvo bem definido neste paciente para o qual a radiofrequência apresenta uma indicação coerente?”
Como o procedimento é realizado?
A técnica varia conforme a região tratada.
Em procedimentos da coluna, por exemplo, o posicionamento costuma ser realizado com auxílio de métodos de imagem, especialmente fluoroscopia, permitindo conduzir a cânula com precisão até o alvo planejado.
Antes da aplicação da radiofrequência, também podem ser realizados testes de estimulação para confirmar o posicionamento adequado e reduzir a possibilidade de atingir estruturas indesejadas.
A necessidade de precisão é um dos motivos pelos quais o procedimento deve ser planejado a partir da anatomia e do diagnóstico do paciente, e não apenas do local onde ele sente dor.
Na dor facetária, por exemplo, o alvo não é diretamente a articulação: são os ramos nervosos responsáveis por transmitir sinais provenientes dela.
Radiofrequência é uma cirurgia?
Ela é classificada como um procedimento minimamente invasivo e normalmente não exige as incisões ou a recuperação características de uma cirurgia aberta.
Ainda assim, isso não significa que seja um procedimento banal.
Como qualquer intervenção, existem riscos e possíveis efeitos adversos.
Dor ou sensibilidade temporária após o procedimento pode ocorrer. Também são descritos eventos como alterações sensitivas, neurite e, mais raramente, complicações relacionadas a sangramento, infecção ou estruturas próximas. Diretrizes recentes de controle de infecção em procedimentos intervencionistas descrevem infecção após radiofrequência dos ramos mediais como rara.
Por isso, condições clínicas, medicamentos em uso, anticoagulantes, anatomia da região e riscos individuais precisam ser considerados.
Quanto tempo dura o efeito?
Não existe uma duração igual para todos.
Quando ocorre uma boa resposta, o benefício pode durar meses e, em alguns pacientes, períodos mais prolongados.
Isso acontece porque o nervo tratado pode gradualmente recuperar sua capacidade de transmitir os sinais.
A recorrência da dor também não significa necessariamente que o procedimento “deu errado”. Pode indicar recuperação do nervo ou mudança do próprio quadro clínico.
Da mesma forma, repetir automaticamente a radiofrequência apenas porque a dor retornou não é necessariamente a melhor estratégia. É preciso reavaliar se o mecanismo e a origem da dor continuam os mesmos.
Onde entra o bloqueio diagnóstico?
Esse é um dos pontos mais interessantes da estratégia de tratamento.
No caso da dor facetária, o exame de imagem pode mostrar artrose ou alterações degenerativas, mas isso não prova que aquelas articulações sejam responsáveis pela dor.
É por isso que o bloqueio diagnóstico pode ser realizado antes da radiofrequência.
O anestésico é aplicado próximo aos ramos mediais suspeitos e observa-se como a dor habitual do paciente responde.
Uma melhora significativa durante o período esperado de ação do anestésico reforça a hipótese de que aquele circuito participa do quadro e pode ajudar a selecionar o paciente para uma radiofrequência. Consensos sobre dor facetária enfatizam justamente que os bloqueios dos ramos mediais apresentam valor prognóstico antes do procedimento.
Isso mostra uma diferença importante entre simplesmente realizar um procedimento e utilizar o procedimento dentro de um raciocínio diagnóstico.
Radiofrequência não deve ser o primeiro passo
A Medicina da Dor dispõe hoje de diferentes recursos intervencionistas.
Mas tecnologia não substitui diagnóstico.
Antes de indicar uma radiofrequência, é necessário compreender a história da dor, realizar exame clínico, avaliar exames quando necessários, analisar tratamentos anteriores e determinar se existe um alvo compatível com o quadro.
Em alguns pacientes, radiofrequência pode representar uma ferramenta importante para reduzir dor e favorecer retomada de função.
Em outros, o mecanismo doloroso exige uma abordagem completamente diferente.
O objetivo não é encontrar um procedimento para a dor. É encontrar a estratégia adequada para aquele paciente.
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