Neuropatia diabética: sintomas, riscos e tratamento da dor
Queimação nos pés, sensação de choques, formigamento, pontadas ou incômodo exagerado ao simples contato do lençol com a pele.
Esses são alguns sintomas que podem aparecer quando os nervos periféricos são afetados pela diabetes.
Mas existe outro lado da neuropatia diabética que merece tanta atenção quanto a dor: algumas pessoas começam justamente a sentir menos.
A diminuição da sensibilidade pode fazer com que pequenas feridas, bolhas, queimaduras ou áreas de pressão nos pés passem despercebidas. Por isso, reconhecer a neuropatia não significa apenas tratar a dor. Também significa preservar sensibilidade, função, mobilidade e reduzir o risco de complicações.
Segundo os Standards of Care in Diabetes 2026, da American Diabetes Association (ADA), até metade dos casos de neuropatia periférica diabética pode não apresentar sintomas percebidos pelo paciente.

O que é neuropatia diabética?
Neuropatia diabética é o nome dado a um grupo de alterações nos nervos associadas a diabetes.
Existem diferentes apresentações, mas a mais comum é a polineuropatia distal simétrica, que geralmente começa nas extremidades dos membros inferiores, principalmente nos pés, e pode avançar gradualmente pelas pernas.
Com o tempo, as mãos também podem ser afetadas.
A diabetes pode causar alterações metabólicas e vasculares que interferem no funcionamento dos nervos. A exposição prolongada a níveis elevados de glicose é um dos fatores importantes, mas a neuropatia não depende apenas da glicemia. Pressão arterial, perfil lipídico e outros fatores metabólicos e cardiovasculares também participam do risco e da progressão da doença.
As recomendações atuais da ADA destacam justamente a importância de otimizar não apenas o controle glicêmico, mas também pressão arterial e lipídios para reduzir o risco ou retardar a progressão da neuropatia.
Quais são os sintomas da neuropatia diabética?
Nem todas as pessoas apresentam a mesma experiência.
Quando fibras nervosas menores são afetadas, podem surgir sintomas como:
- queimação;
- formigamento;
- pontadas;
- sensação de choque;
- dor espontânea;
- sensibilidade exagerada ao toque;
- sensação desconfortável mesmo com estímulos leves.
É relativamente comum esses sintomas se tornarem mais incômodos à noite, interferindo no sono.
Quando fibras nervosas maiores são comprometidas, podem aparecer outras manifestações, como dormência, alterações de equilíbrio e perda da chamada sensibilidade protetora.
Essa diferença é importante.
Na neuropatia diabética, portanto, o paciente pode ter muita dor apesar de um estímulo pequeno ou, no extremo oposto, apresentar uma redução tão importante da sensibilidade que deixa de perceber agressões aos pés.
A ADA descreve dor e sensações desagradáveis de queimação ou formigamento entre os sintomas iniciais relacionados às pequenas fibras nervosas. Já o envolvimento das fibras maiores pode contribuir para dormência, perda de sensibilidade protetora e alterações de equilíbrio.
Por que perder sensibilidade também é preocupante?
Imagine caminhar durante horas com uma pequena pedra dentro do calçado sem perceber que ela está machucando a pele.
Em alguém com sensibilidade normal, o desconforto gera uma reação imediata: parar, retirar o sapato e identificar o problema.
Quando existe perda de sensibilidade protetora, esse sinal de alerta pode falhar.
Pequenos traumas, bolhas e regiões de pressão podem evoluir sem que o paciente perceba inicialmente. Por esse motivo, a neuropatia periférica está diretamente ligada à prevenção do pé diabético.
As diretrizes de 2023 do International Working Group on the Diabetic Foot (IWGDF) recomendam avaliação periódica da neuropatia periférica e do risco de ulceração. Para adultos com diabetes considerados inicialmente de muito baixo risco, a recomendação inclui pelo menos uma avaliação anual.
Isso explica por que o cuidado da neuropatia vai muito além do controle da dor.
Toda queimação ou dormência em uma pessoa com diabetes é neuropatia diabética?
Não. Esse é um ponto importante.
A própria American Diabetes Association define a neuropatia diabética como um diagnóstico de exclusão. Isso significa que ter diabetes e apresentar formigamento ou dor nos pés não basta para concluir automaticamente que a diabetes seja a causa.
Existem outras condições capazes de produzir sintomas semelhantes, como outras neuropatias, alterações nutricionais, doenças metabólicas, problemas relacionados à coluna e comprometimentos específicos de nervos.
Por isso, a história clínica continua sendo fundamental.
É necessário entender quando os sintomas começaram, como evoluíram, se acometem os dois lados, quais regiões estão envolvidas, se existe perda de força ou equilíbrio, quais medicamentos são utilizados e como está o controle do diabetes.
Como é feita a avaliação?
Na maior parte dos casos, a investigação começa pela consulta e pelo exame físico.
O médico pode avaliar diferentes modalidades de sensibilidade, como:
- toque;
- temperatura;
- vibração;
- percepção de estímulos dolorosos;
- reflexos;
- equilíbrio;
- força;
- sensibilidade protetora dos pés.
O teste com monofilamento de 10 gramas é uma das ferramentas utilizadas para identificar perda de sensibilidade protetora. A ADA recomenda que pessoas com diabetes sejam avaliadas para neuropatia periférica desde o diagnóstico na diabetes tipo 2 e, na diabetes tipo 1, a partir de cinco anos após o diagnóstico, mantendo avaliação pelo menos anual posteriormente.
Nem todo paciente precisa realizar eletroneuromiografia ou exames mais complexos. Eles podem ser solicitados quando a apresentação é atípica, há dúvida diagnóstica ou existe necessidade de investigar outros comprometimentos.
Controlar a glicose faz a dor desaparecer?
Não necessariamente.
O controle adequado da diabetes é essencial para reduzir complicações e pode ajudar a prevenir ou retardar a progressão da neuropatia, especialmente quando realizado precocemente.
Mas existe uma diferença entre controlar o processo que agride o nervo e tratar a dor neuropática já estabelecida.
Nos pacientes com diabetes tipo 1, o controle glicêmico precoce apresenta evidência mais consistente para prevenção ou atraso da neuropatia. Na diabetes tipo 2, os benefícios sobre a progressão também existem, mas são mais modestos e não significam necessariamente reversão do dano neuronal que já ocorreu.
Por isso, um paciente pode apresentar exames metabólicos melhores e, ainda assim, continuar precisando de tratamento específico para a dor.
Como é tratada a dor da neuropatia diabética?
A dor neuropática possui mecanismos diferentes de uma dor puramente inflamatória ou de uma lesão muscular. Por isso, analgésicos comuns nem sempre apresentam uma resposta satisfatória.
As recomendações atuais consideram diferentes classes de medicamentos capazes de modular a atividade do sistema nervoso. Entre as opções avaliadas pelas principais diretrizes estão gabapentinoides, antidepressivos que atuam sobre serotonina e noradrenalina, antidepressivos tricíclicos e determinados bloqueadores de canais de sódio.
Isso não significa que exista um medicamento melhor para todos.
Idade, função renal, outras doenças, medicamentos em uso, intensidade dos sintomas, alterações do sono, efeitos adversos e características da dor fazem parte da decisão.
A diretriz da American Academy of Neurology recomenda inclusive que, quando uma classe de medicamentos não apresenta benefício suficiente ou produz efeitos adversos importantes, seja considerada uma classe com mecanismo diferente, em vez de simplesmente trocar por outro medicamento muito semelhante. A diretriz foi reafirmada pela entidade em fevereiro de 2025.
A mesma recomendação orienta evitar opioides no tratamento da polineuropatia diabética dolorosa devido à relação entre riscos e benefícios.
O tratamento não deve olhar apenas para a intensidade da dor
Uma neuropatia que provoca queimação intensa durante a madrugada pode comprometer o sono.
Dormência e perda de equilíbrio podem reduzir a confiança para caminhar.
O medo de machucar os pés pode diminuir atividades cotidianas.
E uma perda importante de sensibilidade exige atenção especial mesmo quando o paciente diz não sentir dor.
Por isso, a avaliação precisa olhar para além de uma escala de zero a dez.
As recomendações atuais da ADA incluem explicitamente o tratamento da dor relacionada à neuropatia periférica com o objetivo de melhorar qualidade de vida. A diretriz da AAN também chama atenção para alterações de sono e humor que podem coexistir com os quadros dolorosos.
Quando procurar avaliação?
Queimação, choques, dormência ou formigamento persistentes merecem atenção, especialmente em pessoas que convivem com diabetes.
Também é importante avaliar perda de equilíbrio, redução progressiva da sensibilidade, feridas que passam despercebidas ou mudanças importantes no padrão dos sintomas.
Na Medicina da Dor, o objetivo não é simplesmente reduzir uma sensação desagradável. É entender qual mecanismo está produzindo aquela dor, quanto os nervos foram afetados, como isso interfere na vida do paciente e quais estratégias podem ser utilizadas com segurança.
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